O poder da genética na Nutrição Esportiva no Futebol

Data:

Compartilhe:

João Vítor conversa com Thais Verdi, nutricionista e geneticista esportiva. Live que aconteceu no 2º SIMPÓSIO DE NUTRIÇÃO ESPORTIVA NO FUTEBOL.

Neste episódio do Ciência da Bola, o apresentador João Vitor recebe a nutricionista e geneticista Thaís Verdi para uma discussão aprofundada sobre a aplicação da genética na nutrição esportiva, detalhando seu recente artigo científico de publicação internacional.

Thaís inicia explicando a importância de distinguir entre nutrigenética (a influência dos genes na resposta individual aos nutrientes) e nutrigenômica (o impacto dos componentes alimentares na expressão gênica). Ambas as áreas são cruciais para personalizar a nutrição e otimizar o desempenho atlético.

Ela ressalta o impacto do Projeto Genoma no avanço da nutrição esportiva, com a identificação de mais de 300 genes relacionados ao esporte. As variações genéticas individuais codificam proteínas, enzimas, receptores e hormônios que modulam diversas características físicas relevantes para atletas.

Thaís explora a relação entre genes específicos e atributos essenciais no futebol:

  • Velocidade e explosão: O gene ACTN3, que diferencia as fibras musculares de tipo II (força e potência) e tipo I (resistência), influencia a posição ideal e a periodização do treinamento.
  • Resistência aeróbica: O gene da enzima conversora da angiotensina (ACE) está associado à eficiência do metabolismo aeróbico.
  • Recuperação: Um processo complexo influenciado por múltiplos fatores genéticos.
  • Tolerância ao calor e hidratação: O receptor da bradicinina B2 (BDKRB2) afeta a vasodilatação e a termorregulação, indicando a sensibilidade individual ao calor e as necessidades de hidratação.
  • Metabolismo energético: A adenosina monofosfato desaminase (AMPD1) impacta a eficiência energética e a propensão à fadiga durante a partida.
  • Capacidade antioxidante e inflamação: Genes como interleucina 6 (IL-6), glutationa peroxidase 1 (GPX1) e fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) modulam o estresse oxidativo e a resposta inflamatória ao exercício.
  • Risco de lesões: O gene do colágeno tipo 5 (COL5A1) pode indicar uma predisposição a problemas articulares.
  • Biogênese mitocondrial: O gene PPAR-alfa (receptor ativado por proliferador de peroxissoma alfa) favorece o desempenho aeróbico ao otimizar a utilização de gordura como fonte de energia.

Com base no laudo genético, Thaís detalha três aplicações principais:

  1. Identificação de talentos: Reconhecimento de perfis genéticos favoráveis para velocidade e resistência.
  2. Personalização da prevenção de lesões: Estratégias baseadas em predisposições genéticas.
  3. Otimização do treinamento: Adaptação dos treinos ao perfil genético individual para maximizar a performance.

Ela explica como a periodização do treino, informada pela genética, direciona a carga, o tipo e o momento do treinamento, influenciando diretamente a periodização nutricional (ingestão calórica, planos alimentares, timing de nutrientes e suplementação).

No âmbito da nutrição personalizada, Thaís discute como a genética orienta as estratégias para:

  • Metabolismo de carboidratos: Análise de IL-6 e AMPD1 para ajustar a carga glicêmica e o suporte mitocondrial.
  • Recuperação muscular: Consideração do ACTN3 para dietas anti-inflamatórias, timing proteico e uso de creatina.
  • Desenvolvimento de força: Foco em ACTN3 e ACE com leucina, beta-alanina, nitrato e magnésio.
  • Melhora da endurance: Análise de BDKRB2 e ACE com antioxidantes, nitrato, citrulina e ajustes eletrolíticos.
  • Termorregulação: Ajustes calóricos e estratégias de hidratação personalizadas com base em genes específicos.
  • Otimização do uso de carboidratos: Implementação de estratégias como o carb cycling.
  • Suporte de micronutrientes: Importância do complexo B, magnésio, potássio e consideração da sensibilidade à cafeína (gene CYP1A2).

Thaís enfatiza que a prescrição clínica e esportiva moderna exige uma abordagem molecular para otimizar a demanda energética, promover adaptações mitocondriais e estimular a biogênese, visando a homeostase orgânica e a saúde integral do atleta. Ela ilustra a aplicação prática com um exemplo de avaliação genética de um jogador fictício.

Na discussão final, Thaís destaca a crescente acessibilidade dos testes genéticos devido a parcerias entre laboratórios e clubes. Ela compartilha sua experiência em colaborações interdisciplinares com preparadores físicos para integrar os dados genéticos na individualização de treinos e planos nutricionais. Para profissionais interessados em aprofundar seus conhecimentos, ela oferece uma mentoria especializada em nutrigenômica no esporte e recomenda seu livro “Nutrição Esportiva Moderna”, que aborda a genética aplicada ao esporte, oferecendo um desconto exclusivo para os ouvintes. Thaís também enfatiza que os testes genéticos podem ser realizados em qualquer idade, sendo um investimento valioso para a saúde geral, fornecendo informações sobre aptidão física e predisposições a diversas condições.

Em resposta à pergunta sobre os próximos passos na pesquisa e aplicação da genética no futebol, Thaís aponta para a barreira do conhecimento entre as comissões técnicas como um fator limitante. Apesar de iniciativas como testes de metaboloma em alguns clubes (Flamengo e São Paulo mencionados), a falta de compreensão sobre o potencial da genética impede um avanço mais personalizado, especialmente por posição e categoria. Ela argumenta que a aplicação mais ampla de testes genéticos poderia prevenir muitas lesões precoces e prolongar a carreira dos atletas, contrastando com a tendência atual de aposentadoria mais jovem devido ao acúmulo de lesões. Thaís expressa a necessidade de maior interesse e estudo nessa área para impulsionar o crescimento da genética avançada no futebol.

Thaís é convidada a retornar em futuras oportunidades para compartilhar novos avanços e perspectivas nessa área promissora.

spot_img
spot_img

Posts Relacionados

Quais os critérios utilizados por treinadores da base no processo de seleção de jovens no Futebol?

Uma pesquisa recente investigou os fatores que influenciam a seleção de jovens jogadores de futebol. O estudo foi...

Os dados de GPS devem ser normalizados para monitoramento de desempenho e fadiga no futebol?

Um novo estudo publicado na revista German Journal of Exercise and Sport Research em junho de 2025 questiona a...

O que influencia a velocidade máxima nas partidas ao longo de uma temporada no Futebol?

Um estudo recente analisou a velocidade máxima atingida por jogadores de futebol durante as partidas, levando em consideração...

Tratamentos para dor crônica em jogadores de Futebol

Um estudo em formato de revisão integrativa analisou a eficácia de tratamentos farmacológicos e não farmacológicos na gestão...

João Bonfatti

João Bonfatti atualmente trabalha como Coordenador do setor de Análise de Desempenho no América-MG. Antes disso, teve passagens pelo Vasco da Gama, onde atuou em diferentes categorias: foi auxiliar técnico do Sub-20, treinador interino do Sub-17 e auxiliar técnico do Sub-17.

Atuou também pelo Atlético-MG, onde desempenhou o papel de auxiliar técnico do Sub-15. No Corinthians, auxiliar técnico do Sub-14, além de exercer a função de supervisor metodológico.

Sua formação inclui o Bacharelado em Futebol pela Universidade Federal de Viçosa e a Licença B da CBF Academy, o que reforça sua base teórica e prática no desenvolvimento de atletas.

Felipe Bonholi

Felipe Bonholi integra a equipe do Palmeiras como Analista de Desempenho no Centro de Formação de Atletas (CFA), contribuindo para o desenvolvimento e acompanhamento de jovens talentos.

Antes disso, acumulou cinco anos de experiência na Ferroviária, onde atuou como Analista de Desempenho da equipe profissional, e no São Carlos Futebol Clube na mesma função.

Sua formação acadêmica inclui Bacharelado em Administração de Empresas pela UNIARA (2014–2017) e graduação em andamento em Educação Física pela mesma instituição, iniciada em 2019.

Com sólida base teórica e ampla experiência prática, Felipe Bonholi se destaca por sua capacidade de integrar análise técnica, gestão e visão estratégica no contexto esportivo, contribuindo para o desempenho e evolução de atletas e equipes.

Mylena Baransk

Mylena Baransk é doutora em Educação Física pela Universidade Federal do Paraná e mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde também concluiu sua graduação em Educação Física – Bacharelado. Especialista em futsal com foco em análise de desempenho, atuou como docente em cursos do ensino superior e analista de desempenho no futebol.

Atualmente, exerce a função de analista de desempenho no Clube Atlético Mineiro, onde trabalha desde agosto de 2024. Antes disso, desempenhou a mesma função na Associação Ferroviária de Esportes entre março e agosto de 2024, atuando em Araraquara, São Paulo.

Além da atuação em clubes, possui experiência acadêmica como docente, tendo lecionado na UniCesumar entre julho e outubro de 2023, em Curitiba, Paraná. Também foi professora na UNIFATEB, onde atuou por quase três anos, de fevereiro de 2021 a outubro de 2023, em Telêmaco Borba, Paraná.

Com forte presença na área de análise de desempenho no futebol, também é CEO da Statisticsfut, onde se dedica ao desenvolvimento de conteúdos e estratégias voltadas à análise estatística e desempenho esportivo.

Nathália Arnosti

Nathália Arnosti é uma profissional de destaque na área de Fisiologia do Esporte e Preparação Física, com sólida formação acadêmica e ampla experiência no futebol brasileiro.

Bacharel e mestre em Educação Física pela Universidade Metodista de Piracicaba e doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela construiu uma carreira marcada pela integração entre ciência e prática esportiva.

No cenário dos clubes, já contribuiu com equipes como Athletico Paranaense, Red Bull Bragantino, Palmeiras, Audax, Ferroviária e Ponte Preta. Em janeiro de 2024, assumiu o cargo de fisiologista do Cruzeiro, reforçando seu papel como referência no acompanhamento e otimização do desempenho esportivo.

Rodrigo Aquino

Rodrigo Aquino é professor na Universidade Federal do Espírito Santo, onde atua no Departamento de Desportos e como docente do Programa de Pós-Graduação em Educação Física (Mestrado e Doutorado).

É líder do Grupo de Estudos Pesquisa em Ciências no Futebol (GECIF/UFES) e coordenador do Programa Academia e Futebol (Núcleo UFES), financiado pelo Ministério do Esporte. Seu trabalho envolve a coordenação de projetos técnico-científicos em parceria com categorias de base e equipes profissionais de futebol no Brasil.

Rodrigo é graduado em Educação Física e Esporte pela USP, com especialização em Ciências do Desporto pela Universidade do Porto. Concluiu o mestrado e doutorado em Ciências também pela USP. Acumula experiência prática no futebol desde 2015 como fisiologista e preparador físico em clubes profissionais, além de atuar como treinador e coordenador técnico em categorias de base. Reconhecido academicamente, está entre os 10 cientistas do esporte mais produtivos da América Latina em publicações científicas relacionadas ao futebol.

Neto Pereira

Neto Pereira é um profissional de preparação física e performance esportiva com experiência em clubes do Brasil e do exterior. Atualmente é Preparador Físico no sub-20 do Vasco da Gama.

Trabalhou como Head Performance and Fitness Coach no FC Semey do Cazaquistão (2024). Foi Preparador Físico no Confiança (2023-2024) e Head of Performance and Health no Avaí (2022-2023). Também exerceu o cargo de Coordenador de Performance no Confiança (2022) e trabalhou como Fisiologista no CRB (2021-2022) e no próprio Confiança (2019-2021).

Possui Mestrado em Saúde e Educação Física pela Universidade Federal de Sergipe e Especialização em Desempenho Humano pela Universidade Tiradentes (Unit). Suas principais competências incluem preparação física, análise de desempenho, força, potência e velocidade no esporte.

Rafael Grazioli

Rafael Grazioli, natural de Canoas (RS), é formado em Educação Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também concluiu mestrado e doutorado em Ciências do Movimento Humano.

Com nove anos de experiência atuando como coordenador científico e fisiologista no futebol profissional, ele passou as últimas três temporadas no Guarani de Campinas (SP) antes de ser anunciado pelo Criciúma em janeiro de 2025.