O desafio do planejamento de treinos no futebol profissional

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Reprodução

No futebol profissional, o resultado do próximo jogo costuma ditar as decisões do dia a dia. A pressão por vitórias e a pouca estabilidade no cargo fazem com que muitos treinadores priorizem o desempenho imediato. Mas até que ponto essa busca constante por resultados interfere no desenvolvimento da equipe e dos jogadores ao longo da temporada?

Essa foi a pergunta que motivou um estudo recente desenvolvido pelo pesquisador Gabriel Silva da Universidade do Porto e colaboradores de diversos países. O Artigo foi publicado no International Journal of Sports Science & Coaching, um dos periódicos científicos mais conceituados na área. Os pesquisadores entrevistaram 118 treinadores profissionais para entender como eles equilibram os objetivos de aprendizagem e desempenho em diferentes momentos da temporada.

Principais resultados

Os resultados mostraram um cenário interessante. Quando pensam no planejamento da temporada, a maioria dos treinadores afirmam valorizar aspectos relacionados ao desenvolvimento, como construir uma identidade de jogo clara, aprimorar as habilidades individuais dos atletas e promover a evolução da equipe. Em outras palavras, existe uma preocupação evidente com a aprendizagem a longo prazo.

No entanto, esse cenário muda quando o foco passa para o planejamento semanal. Durante o microciclo, as prioridades deixam de ser o desenvolvimento e passam a ser fatores diretamente relacionados ao próximo jogo, como o modelo de jogo da equipe, a condição física dos atletas e a análise da partida anterior. O desenvolvimento individual aparece com muito menos destaque, indicando que, na prática, o desempenho imediato tende a dominar as decisões do treinador.

Outro dado que chama atenção é que 67% dos treinadores afirmaram manter praticamente a mesma estrutura de microciclo durante toda a temporada. Além disso, metade utiliza um modelo baseado na alternância diária das cargas de treino, enquanto 39% seguem princípios da Periodização Tática. Segundo os autores, o problema não está necessariamente nesses modelos, mas na rigidez com que eles são aplicados. A repetição constante da mesma organização semanal pode reduzir a variabilidade dos estímulos e limitar as oportunidades de aprendizagem e adaptação dos jogadores ao longo da temporada.

O estudo também mostra que o trabalho coletivo recebe muito mais atenção do que o desenvolvimento individual. Enquanto 75% dos treinadores afirmam dedicar grande parte do tempo ao treinamento tático da equipe, apenas 23% relatam investir consideravelmente no desenvolvimento individual dos atletas. Essa diferença reforça uma característica comum do futebol profissional que é a necessidade de preparar rapidamente a equipe para competir acaba reduzindo o espaço para intervenções mais individualizadas.

Conclusões práticas

Apesar desse predomínio do desempenho nas decisões do dia a dia, os autores não defendem que os treinadores abandonem a busca por resultados. Pelo contrário. A principal mensagem do estudo é que desempenho e aprendizagem não precisam ser objetivos opostos. O desafio está em construir um processo de treinamento que permita competir em alto nível sem abrir mão do desenvolvimento contínuo da equipe e dos jogadores.

Isso pode significar adaptar o microciclo às necessidades do contexto, variar os estímulos oferecidos nos treinamentos, criar situações que desafiem constantemente os atletas e reservar espaço para o desenvolvimento individual, mesmo durante a temporada competitiva. Afinal, vencer o próximo jogo é importante, mas garantir que a equipe continue evoluindo ao longo dos meses pode ser o que sustenta o desempenho no longo prazo.

O artigo completo está disponível clicando aqui

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