Estudo com árbitros investigou o impacto dos “ruídos” nas decisões e a relação com erros de arbitragem

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Pesquisadores investigaram como o “ruído” nas decisões dos árbitros de futebol pode levar a inconsistências durante as partidas. O estudo, intitulado “The ‘silent’ noise: moving forward from bias to noise in football referees’ decision-making” (O “ruído” silencioso: avançando do viés para o ruído na tomada de decisão dos árbitros de futebol), explorou como variações aleatórias nas decisões dos árbitros, mesmo em situações semelhantes, podem impactar a justiça e a credibilidade do esporte.

O que é um ruído na arbitragem?

O ruído na arbitragem do futebol é a falta de consistência nas decisões dos árbitros. Isso significa que infrações parecidas podem ser julgadas de formas diferentes dependendo do árbitro ou até do momento do jogo.
 
Diferente do viés, que é quando um árbitro tende a favorecer um lado (por exemplo, por influência da torcida), o ruído é mais imprevisível e acontece porque as decisões variam sem um padrão claro. Esse tipo de erro pode passar despercebido, mas tem um impacto real no jogo, tornando a arbitragem menos justa e confiável.
 
Por que o estudo foi realizado?

A pesquisa foi conduzida pelos pesquisadores israelenses Roy David Samuel, Yair Galily e Guy Hochman, especialistas em psicologia do esporte e tomada de decisão. O estudo foi publicado na renomada revista International Journal of Sport and Exercise Psychology, e teve  como objetivo principal analisar o conceito de “ruído” nas decisões dos árbitros, definido como a variabilidade indesejável em julgamentos de situações semelhantes.

Enquanto grande parte das pesquisas anteriores focava no “viés” (decisões tendenciosas), este estudo buscou entender como o “ruído” — inconsistências aleatórias — também contribui para erros e injustiças no futebol.

Como o estudo foi realizado?

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores analisaram dados de árbitros da Premier League de Israel, avaliando suas decisões em 36 partidas reais. Eles categorizaram as decisões em acertos (faltas corretamente marcadas), rejeições corretas (não marcar faltas inexistentes), erros (faltas não marcadas) e falsos alarmes (faltas marcadas incorretamente). Além disso, o estudo utilizou métodos estatísticos, como o desvio padrão, para medir a consistência das decisões.

Principais resultados

O estudo identificou três tipos principais de ruído que afetam as decisões dos árbitros. O primeiro é o “ruído de nível”, que reflete diferenças na severidade ou tolerância entre árbitros. Por exemplo, um árbitro pode ser mais rigoroso, enquanto outro é mais permissivo.

O segundo é o “ruído de padrão estável”, que ocorre quando um mesmo árbitro toma decisões diferentes em situações semelhantes devido a fatores como fadiga, humor ou distrações.

Por fim, o “ruído de ocasião” é influenciado por fatores externos, como horário do jogo, localização do estádio ou intervenções do VAR (Árbitro Assistente de Vídeo). Esses tipos de ruído podem levar a decisões inconsistentes, como marcar pênaltis em situações semelhantes de maneiras diferentes. Isso pode minar a confiança dos torcedores e times na arbitragem, afetando a percepção de justiça e credibilidade do esporte.

Como reduzir o ruído nas decisões da arbitragem?

Para reduzir o ruído, os pesquisadores sugerem estratégias como auditorias de decisão, que envolvem análises de vídeo pós-jogo para identificar inconsistências, e treinamentos especializados que simulam situações reais de jogo, incluindo pressão psicológica e física. Além disso, a melhoria na comunicação entre árbitros e VAR é apontada como essencial para garantir decisões mais alinhadas e consistentes.

No entanto, o estudo também alerta para os custos e desafios associados à redução do ruído. Investimentos em treinamento e tecnologia, como o VAR, são necessários, mas a padronização excessiva pode reduzir a flexibilidade dos árbitros, criando novos problemas. Por exemplo, decisões muito rígidas podem impedir que os árbitros se adaptem a situações únicas, prejudicando a justiça em prol da consistência.

Como próximos passos, os pesquisadores sugerem que mais estudos sejam feitos para validar estratégias de redução de ruído e explorar como fatores cognitivos, emocionais e situacionais influenciam as decisões dos árbitros. A colaboração entre pesquisadores, comitês profissionais e treinadores de arbitragem será essencial para implementar mudanças eficazes e garantir que o futebol continue a ser um esporte justo e emocionante para todos.

 
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João Bonfatti

João Bonfatti atualmente trabalha como Coordenador do setor de Análise de Desempenho no América-MG. Antes disso, teve passagens pelo Vasco da Gama, onde atuou em diferentes categorias: foi auxiliar técnico do Sub-20, treinador interino do Sub-17 e auxiliar técnico do Sub-17.

Atuou também pelo Atlético-MG, onde desempenhou o papel de auxiliar técnico do Sub-15. No Corinthians, auxiliar técnico do Sub-14, além de exercer a função de supervisor metodológico.

Sua formação inclui o Bacharelado em Futebol pela Universidade Federal de Viçosa e a Licença B da CBF Academy, o que reforça sua base teórica e prática no desenvolvimento de atletas.

Felipe Bonholi

Felipe Bonholi integra a equipe do Palmeiras como Analista de Desempenho no Centro de Formação de Atletas (CFA), contribuindo para o desenvolvimento e acompanhamento de jovens talentos.

Antes disso, acumulou cinco anos de experiência na Ferroviária, onde atuou como Analista de Desempenho da equipe profissional, e no São Carlos Futebol Clube na mesma função.

Sua formação acadêmica inclui Bacharelado em Administração de Empresas pela UNIARA (2014–2017) e graduação em andamento em Educação Física pela mesma instituição, iniciada em 2019.

Com sólida base teórica e ampla experiência prática, Felipe Bonholi se destaca por sua capacidade de integrar análise técnica, gestão e visão estratégica no contexto esportivo, contribuindo para o desempenho e evolução de atletas e equipes.

Mylena Baransk

Mylena Baransk é doutora em Educação Física pela Universidade Federal do Paraná e mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde também concluiu sua graduação em Educação Física – Bacharelado. Especialista em futsal com foco em análise de desempenho, atuou como docente em cursos do ensino superior e analista de desempenho no futebol.

Atualmente, exerce a função de analista de desempenho no Clube Atlético Mineiro, onde trabalha desde agosto de 2024. Antes disso, desempenhou a mesma função na Associação Ferroviária de Esportes entre março e agosto de 2024, atuando em Araraquara, São Paulo.

Além da atuação em clubes, possui experiência acadêmica como docente, tendo lecionado na UniCesumar entre julho e outubro de 2023, em Curitiba, Paraná. Também foi professora na UNIFATEB, onde atuou por quase três anos, de fevereiro de 2021 a outubro de 2023, em Telêmaco Borba, Paraná.

Com forte presença na área de análise de desempenho no futebol, também é CEO da Statisticsfut, onde se dedica ao desenvolvimento de conteúdos e estratégias voltadas à análise estatística e desempenho esportivo.

Nathália Arnosti

Nathália Arnosti é uma profissional de destaque na área de Fisiologia do Esporte e Preparação Física, com sólida formação acadêmica e ampla experiência no futebol brasileiro.

Bacharel e mestre em Educação Física pela Universidade Metodista de Piracicaba e doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela construiu uma carreira marcada pela integração entre ciência e prática esportiva.

No cenário dos clubes, já contribuiu com equipes como Athletico Paranaense, Red Bull Bragantino, Palmeiras, Audax, Ferroviária e Ponte Preta. Em janeiro de 2024, assumiu o cargo de fisiologista do Cruzeiro, reforçando seu papel como referência no acompanhamento e otimização do desempenho esportivo.

Rodrigo Aquino

Rodrigo Aquino é professor na Universidade Federal do Espírito Santo, onde atua no Departamento de Desportos e como docente do Programa de Pós-Graduação em Educação Física (Mestrado e Doutorado).

É líder do Grupo de Estudos Pesquisa em Ciências no Futebol (GECIF/UFES) e coordenador do Programa Academia e Futebol (Núcleo UFES), financiado pelo Ministério do Esporte. Seu trabalho envolve a coordenação de projetos técnico-científicos em parceria com categorias de base e equipes profissionais de futebol no Brasil.

Rodrigo é graduado em Educação Física e Esporte pela USP, com especialização em Ciências do Desporto pela Universidade do Porto. Concluiu o mestrado e doutorado em Ciências também pela USP. Acumula experiência prática no futebol desde 2015 como fisiologista e preparador físico em clubes profissionais, além de atuar como treinador e coordenador técnico em categorias de base. Reconhecido academicamente, está entre os 10 cientistas do esporte mais produtivos da América Latina em publicações científicas relacionadas ao futebol.

Neto Pereira

Neto Pereira é um profissional de preparação física e performance esportiva com experiência em clubes do Brasil e do exterior. Atualmente é Preparador Físico no sub-20 do Vasco da Gama.

Trabalhou como Head Performance and Fitness Coach no FC Semey do Cazaquistão (2024). Foi Preparador Físico no Confiança (2023-2024) e Head of Performance and Health no Avaí (2022-2023). Também exerceu o cargo de Coordenador de Performance no Confiança (2022) e trabalhou como Fisiologista no CRB (2021-2022) e no próprio Confiança (2019-2021).

Possui Mestrado em Saúde e Educação Física pela Universidade Federal de Sergipe e Especialização em Desempenho Humano pela Universidade Tiradentes (Unit). Suas principais competências incluem preparação física, análise de desempenho, força, potência e velocidade no esporte.

Rafael Grazioli

Rafael Grazioli, natural de Canoas (RS), é formado em Educação Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também concluiu mestrado e doutorado em Ciências do Movimento Humano.

Com nove anos de experiência atuando como coordenador científico e fisiologista no futebol profissional, ele passou as últimas três temporadas no Guarani de Campinas (SP) antes de ser anunciado pelo Criciúma em janeiro de 2025.