Uma estrutura conceitual atualizada sobre desempenho físico e treinamento no futebol

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O monitoramento da carga de treinamento tornou-se parte importante da rotina de clubes e comissões técnicas. GPS, frequência cardíaca, percepção subjetiva de esforço, testes físicos e questionários de bem-estar fornecem uma quantidade cada vez maior de informações sobre os jogadores.

Entretanto, existe uma questão fundamental: estamos interpretando corretamente aquilo que esses indicadores realmente representam?

Um mesmo dado pode assumir significados diferentes dependendo do objetivo da análise. A distância percorrida em alta velocidade, por exemplo, pode representar uma medida de carga externa, um indicador de desempenho físico quando comparada a uma referência ou simplesmente uma informação sobre a exposição do atleta a determinada demanda.

Essa discussão é o ponto central de um estudo publicado em 2026 na revista Sports Medicine – Open, intitulado An Updated Conceptual Framework on Physical Performance and Training in Soccer: A Narrative Review, de Pillitteri e colaboradores.

Os pesquisadores apresentam uma estrutura conceitual atualizada para organizar a interpretação do desempenho físico e do treinamento no futebol, propondo uma distinção entre exposição à carga, desempenho físico produzido, resposta fisiológica e capacidade física do atleta.

O problema não está na falta de dados, mas na interpretação

Com a popularização dos sistemas de monitoramento, os profissionais passaram a ter acesso a diferentes indicadores de carga externa e interna.

A carga externa representa o trabalho físico realizado pelo jogador, podendo ser quantificada por indicadores como distância total, distância em alta velocidade, número de acelerações e desacelerações.

Já a carga interna representa a resposta psicofisiológica do organismo diante desse trabalho, sendo frequentemente monitorada por frequência cardíaca, percepção subjetiva de esforço (PSE), consumo de oxigênio e concentração de lactato.

Embora esses conceitos estejam bem estabelecidos na literatura, os autores destacam que ainda existe uma dificuldade importante: diferenciar o que os indicadores estão efetivamente informando.

Por exemplo, um jogador que percorre 800 metros em alta velocidade durante uma atividade apresenta uma exposição externa maior do que outro que percorre 500 metros. Isso significa necessariamente que ele possui melhor condição física? Não. Também não significa que tenha apresentado uma resposta fisiológica proporcionalmente maior ou que esteja mais preparado para suportar as exigências competitivas.

A interpretação depende da finalidade da análise, das características individuais e das referências utilizadas.

Três perguntas para compreender o desempenho físico

A principal contribuição conceitual do trabalho é organizar a interpretação do desempenho físico a partir de três perguntas fundamentais:

1. O que o atleta fez?

Essa pergunta está relacionada ao desempenho físico produzido, ou seja, às ações externas realizadas durante treinamentos e partidas.

Entre os indicadores utilizados estão:

  • Distância total percorrida; Distância em alta velocidade; Distância em sprint; Número de acelerações e desacelerações; Distância percorrida por minuto; Distância em alta velocidade por minuto.

Essas informações permitem compreender o trabalho físico realizado pelo jogador.

Entretanto, para que sejam interpretadas como indicadores de desempenho, precisam ser comparadas com referências pertinentes, como o histórico individual do atleta, as exigências da posição, as demandas competitivas ou os objetivos estabelecidos para o treinamento.

2. Como o atleta respondeu ao trabalho realizado?

A segunda pergunta diz respeito à resposta fisiológica e perceptiva diante da atividade executada. Dois jogadores podem realizar exatamente o mesmo trabalho externo e apresentar respostas internas diferentes. Um deles pode apresentar frequência cardíaca média de 160 bpm, enquanto o outro registra 180 bpm. Da mesma forma, podem existir diferenças na percepção subjetiva de esforço.

Essas diferenças são importantes para compreender como cada atleta está respondendo ao estímulo.

Contudo, uma resposta interna mais elevada não significa automaticamente que o jogador tenha pior condição física. Fadiga, recuperação, condições ambientais, estado psicológico e outras características individuais podem influenciar essas respostas.

Portanto, carga externa e carga interna devem ser interpretadas como informações complementares, e não intercambiáveis.

3. Do que o atleta é capaz?

A terceira dimensão envolve o estado de aptidão física e a capacidade de produzir ou sustentar determinadas ações.

Aqui, a discussão deixa de estar concentrada exclusivamente no trabalho realizado em uma sessão e passa a considerar as capacidades desenvolvidas ao longo do processo de treinamento.

Entre as possibilidades de avaliação estão:

  • Capacidade aeróbia; Força muscular; Potência muscular; Velocidade; Capacidade neuromuscular; Resistência muscular.

Para isso, são necessários procedimentos de avaliação apropriados à capacidade que se pretende investigar. Os autores reforçam que não é adequado determinar o estado de aptidão física de um jogador utilizando apenas um indicador de monitoramento ou a relação entre carga externa e interna.

Carga externa: volume e intensidade precisam ser analisados separadamente

Outra discussão importante apresentada no artigo está relacionada à interpretação da carga externa. Os pesquisadores propõem considerar duas dimensões complementares:

Volume da carga externa (ELV): representa a quantidade total de trabalho externo acumulado em determinado período.

Intensidade da carga externa (ELI): representa a taxa na qual esse trabalho é realizado.

Essa diferenciação é particularmente importante quando comparamos sessões de treinamento com partidas oficiais. Imagine uma partida na qual determinado jogador percorreu 13 km, com uma intensidade média de 144 metros por minuto. Em uma sessão de treinamento, esse mesmo jogador percorreu 8 km, com intensidade média de 72 metros por minuto. Nesse exemplo, o treinamento reproduziu aproximadamente 61,5% do volume total de distância da partida, mas apenas 50% da intensidade média.

Entretanto, ao analisar as acelerações, o cenário pode ser diferente: a sessão de treinamento pode apresentar um volume e uma frequência de acelerações superiores aos encontrados na partida. Isso demonstra que uma sessão pode apresentar diferentes relações com as demandas competitivas, dependendo do indicador analisado.

Portanto, observar somente a distância total percorrida pode oferecer uma interpretação incompleta da exposição física proporcionada pelo treinamento.

Os autores também destacam que volume e intensidade devem permanecer como dimensões complementares, sem serem artificialmente combinados em um único índice de carga externa.

Dois jogadores, mesma carga externa, respostas diferentes

Uma das aplicações mais interessantes da estrutura apresentada pelos pesquisadores está na interpretação das diferenças individuais.

Considere dois jogadores que realizam uma atividade com a mesma duração e acumulam 500 metros de corrida em alta velocidade. Apesar da exposição externa semelhante, um jogador apresenta PSE 5, enquanto o outro apresenta PSE 8. O que podemos concluir?

Primeiramente, que ambos realizaram uma quantidade semelhante de trabalho externo naquela atividade. Entretanto, a resposta interna foi diferente. Essa informação pode indicar que os jogadores estão experimentando o mesmo estímulo de maneiras distintas, mas não permite afirmar isoladamente que aquele que apresentou PSE mais elevada possui pior aptidão física. É necessário considerar outras informações, como histórico de treinamento, fadiga acumulada, recuperação, condições individuais e avaliações físicas específicas.

Da mesma forma, um jogador pode apresentar maior produção externa e menor resposta interna, mas isso também não deve ser interpretado automaticamente como superioridade física. A relação entre essas variáveis precisa ser analisada dentro de um contexto.

Fadiga, recuperação e prontidão: informações que complementam o monitoramento

O estudo também aborda a relação entre aptidão física, fadiga, recuperação e prontidão para treinar ou competir. Os autores apresentam a aptidão física como uma capacidade desenvolvida cronicamente por meio das adaptações ao treinamento.

A fadiga, por outro lado, representa uma redução aguda e multifatorial da capacidade de produzir ou sustentar determinado desempenho. A prontidão é compreendida como um estado dinâmico resultante da interação entre a capacidade física desenvolvida e a fadiga aguda.

Isso significa que um atleta pode apresentar bons níveis de aptidão física, mas não estar em condições ideais para realizar determinada atividade em um dia específico.

Para compreender esse cenário, o monitoramento pode combinar informações objetivas e subjetivas.

Entre os indicadores objetivos estão:

  • Countermovement Jump (CMJ);
  • Testes de sprint;
  • Testes de força;
  • Avaliações neuromusculares;
  • Indicadores fisiológicos.

Entre os indicadores subjetivos estão:

  • Qualidade do sono;
  • Percepção de fadiga;
  • Estresse;
  • Dor muscular;
  • Escalas de recuperação;
  • Questionários de bem-estar.

O artigo ressalta que essas informações precisam ser interpretadas considerando suas respectivas finalidades. Indicadores de fadiga não são equivalentes a avaliações de aptidão física, assim como questionários de bem-estar não representam, isoladamente, uma medida completa de prontidão.

Como aplicar essa estrutura na prescrição do treinamento?

A principal implicação prática do estudo está na necessidade de alinhar o objetivo da sessão aos indicadores utilizados para prescrever e monitorar o treinamento. Os autores destacam duas possibilidades que frequentemente se complementam.

Quando o objetivo é provocar adaptações fisiológicas

Se a intenção é desenvolver determinada capacidade fisiológica, como a capacidade aeróbia ou adaptações metabólicas, a prescrição pode ser orientada principalmente pela resposta interna desejada. Nesse cenário, frequência cardíaca, PSE e outras medidas fisiológicas podem auxiliar na compreensão do estímulo produzido.

Quando o objetivo é preparar o jogador para as demandas competitivas

Se a intenção é expor os jogadores às exigências físicas específicas das partidas, os indicadores de carga externa ganham maior importância. Distância em alta velocidade, sprints, acelerações e outras ações podem ser utilizadas como referências para a construção das atividades.

Nesse caso, os dados das partidas ajudam a estabelecer parâmetros individuais e posicionais para orientar a exposição dos atletas. É importante compreender que essas duas perspectivas não são concorrentes.

As adaptações fisiológicas contribuem para que o jogador consiga suportar as exigências competitivas, enquanto as demandas das partidas representam referências externas importantes para direcionar o treinamento. O desafio está em compreender qual dimensão deve orientar prioritariamente cada intervenção.

O que muda na rotina dos profissionais de preparação física?

A proposta apresentada pelos autores não cria novos indicadores de monitoramento nem substitui os conceitos tradicionais de carga externa, carga interna e aptidão física.

Sua contribuição está em organizar a interpretação dessas informações. Na prática, isso significa que, antes de analisar um relatório de GPS, frequência cardíaca ou questionário de bem-estar, o profissional precisa compreender qual pergunta deseja responder.

Está tentando quantificar o trabalho realizado? Quer verificar se o jogador atingiu determinada demanda física? Precisa compreender a resposta fisiológica ao estímulo? Ou deseja avaliar a capacidade física que o atleta desenvolveu?

Cada pergunta exige indicadores e referências apropriados.

Essa organização também ajuda a evitar interpretações equivocadas, como considerar automaticamente que maior distância percorrida representa melhor desempenho físico ou que uma frequência cardíaca mais elevada indica pior condição física.

O monitoramento não deve ser uma simples acumulação de números. Seu valor está na capacidade de transformar informações em interpretações coerentes e decisões relacionadas aos objetivos do treinamento.

Considerações finais

O desempenho físico no futebol é complexo e não pode ser representado adequadamente por um único indicador. A quantidade de dados disponíveis para os profissionais aumentou consideravelmente, mas isso não significa que a interpretação desses dados tenha acompanhado a mesma evolução.

A estrutura conceitual apresentada no artigo reforça a importância de diferenciar exposição à carga, desempenho físico produzido, resposta fisiológica e capacidade física.

Para os profissionais que atuam com preparação física e análise de desempenho, a mensagem central é clara: antes de escolher o indicador, é necessário definir a pergunta que se pretende responder. Essa mudança de perspectiva pode contribuir para avaliações mais coerentes, melhor seleção de indicadores e maior alinhamento entre monitoramento e prescrição do treinamento.

Mais do que coletar dados, precisamos compreender o que eles realmente representam.

O artigo completo está disponível clicando aqui

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Tradução e adaptação com auxílio de IA. Revisão de João Vítor de Assis.