Viagens mais longas podem influenciar as ações de alta intensidade no futebol de elite?

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As viagens fazem parte da rotina de equipes de futebol profissional, mas nem todo jogo fora de casa envolve as mesmas condições de deslocamento. Distância, tempo de viagem, logística, recuperação e alterações na rotina dos jogadores podem variar consideravelmente de uma partida para outra.

Um estudo publicado em 2026 no International Journal of Performance Analysis in Sport investigou justamente se a proximidade do local das partidas fora de casa estava associada a diferenças nos indicadores de carga externa de jogadores de futebol de elite.

Como o estudo foi realizado?

Os pesquisadores analisaram dados de 22 jogadores de linha de uma equipe de elite localizada em uma ilha, durante a temporada 2023/2024.

Foram consideradas 17 partidas oficiais disputadas fora de casa, totalizando 173 observações individuais. Para participar da análise, os jogadores precisavam ter atuado durante pelo menos 45 minutos.

A carga externa foi monitorada por meio de dispositivos GPS, considerando diferentes indicadores:

  • distância total percorrida;
  • corrida em alta velocidade (19,8–24,9 km/h);
  • distância percorrida em sprint (>25 km/h);
  • acelerações superiores a 3 m/s²;
  • desacelerações superiores a 3 m/s².

Para permitir a comparação entre jogadores com diferentes tempos de participação, os indicadores foram normalizados de acordo com os minutos disputados.

A distância entre o estádio da equipe e o estádio de cada adversário foi utilizada como referência para representar a proximidade das partidas. A partir dessa informação, os jogos foram agrupados em três categorias:

Partidas mais próximas: 333 ± 41,6 km
Distância intermediária: 701 ± 32,3 km
Partidas mais distantes: 967 ± 153 km

O que os pesquisadores encontraram?

As principais diferenças apareceram justamente nas ações realizadas em maiores intensidades.

Os jogadores apresentaram menores valores de corrida em alta velocidade e de distância percorrida em sprint nas partidas realizadas a distâncias intermediárias e maiores, quando comparadas às partidas do grupo mais próximo.

Para a corrida em alta velocidade, por exemplo, foram registrados valores médios de:

  • 7,4 m/min nas partidas mais próximas;
  • 6,9 m/min nas partidas de distância intermediária;
  • 7,0 m/min nas partidas mais distantes.

Na distância em sprint, os valores foram:

  • 3,4 m/min nas partidas mais próximas;
  • 3,1 m/min nas partidas intermediárias;
  • 3,1 m/min nas partidas mais distantes.

As comparações estatísticas indicaram diferenças significativas tanto para a corrida em alta velocidade quanto para os sprints.

Entretanto, esse comportamento não apareceu em todos os indicadores de carga externa.

Não foram identificados efeitos significativos da proximidade da partida sobre a distância total percorrida, duração da participação ou número de desacelerações. Para as acelerações, houve um efeito geral, mas as comparações específicas apresentaram evidências mais limitadas.

Isso sugere que a associação encontrada não representa simplesmente uma redução generalizada da atividade física dos jogadores. As diferenças apareceram principalmente nas ações de maior intensidade.

Isso significa que viagens mais longas diminuem o desempenho?

Não necessariamente.

Esse é um dos cuidados mais importantes na interpretação do estudo.

Os pesquisadores não avaliaram diretamente fatores como fadiga provocada pela viagem, duração efetiva do deslocamento, qualidade do sono, horários das viagens ou alterações do ritmo circadiano.

A distância entre os estádios foi utilizada como um indicador contextual das diferentes demandas envolvidas nos deslocamentos.

Portanto, não é possível concluir que viajar uma determinada quantidade de quilômetros tenha causado diretamente a redução observada nas ações de alta intensidade.

Além disso, a proximidade da partida explicou apenas uma pequena parcela da variação da carga externa. Houve uma variabilidade considerável entre os próprios jogadores, reforçando a importância de considerar respostas individuais.

Qual a aplicação prática?

Os resultados ajudam a chamar atenção para um aspecto que muitas vezes pode ser simplificado na análise das partidas: jogar fora de casa não representa sempre o mesmo contexto.

Uma viagem relativamente curta e um deslocamento de quase mil quilômetros podem gerar condições logísticas bastante diferentes, mesmo que ambos sejam classificados simplesmente como “jogos fora”.

Para profissionais envolvidos no controle de carga, preparação física e planejamento da recuperação, a distância da partida pode funcionar como mais uma informação contextual.

Isso pode contribuir para o planejamento de:

  • logística das viagens;
  • estratégias individualizadas de recuperação;
  • organização das sessões anteriores e posteriores às partidas;
  • acompanhamento da prontidão dos jogadores;
  • interpretação dos dados de GPS após diferentes tipos de deslocamento.

No entanto, os próprios autores alertam que a distância não deve ser utilizada isoladamente para determinar alterações no treinamento ou na recuperação.

O ideal é interpretá-la em conjunto com outras informações, como duração e horário da viagem, sono, percepção de fadiga, calendário competitivo, características individuais e contexto da própria partida.

Um resultado que precisa ser interpretado dentro do contexto

O estudo apresenta algumas limitações importantes.

A investigação envolveu apenas uma equipe e um contexto bastante específico: um clube localizado em uma ilha, no qual as partidas fora de casa exigiam deslocamentos aéreos.

Além disso, somente três partidas fizeram parte do grupo considerado mais próximo, enquanto os outros dois grupos tiveram sete jogos cada. Partidas que terminaram empatadas também foram excluídas da análise.

Por isso, os resultados não devem ser automaticamente generalizados para todas as equipes, campeonatos ou tipos de viagem.

Ainda assim, o trabalho apresenta uma perspectiva interessante: a distância e as características do deslocamento podem ser consideradas variáveis contextuais na interpretação das demandas competitivas.

Mais do que estabelecer que “viagens longas reduzem o desempenho”, o estudo reforça a necessidade de compreender o jogo dentro de um conjunto maior de fatores.

Em ambientes de alto rendimento, especialmente para equipes submetidas frequentemente a viagens aéreas, considerar as características do deslocamento juntamente com informações individuais dos jogadores pode ajudar a tornar as decisões relacionadas ao treinamento e à recuperação mais contextualizadas.

O artigo completo está disponível clicando aqui

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