Ciclo menstrual e desempenho no futebol feminino: o que diz a ciência?

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O ciclo menstrual pode influenciar o desempenho físico de jogadoras de futebol? Essa é uma questão cada vez mais relevante para a preparação física, o monitoramento das atletas e o planejamento do treinamento no futebol feminino.

Com o avanço da profissionalização da modalidade, compreender as particularidades fisiológicas das mulheres tornou-se fundamental para o desenvolvimento de estratégias de treinamento individualizadas. Nesse contexto, um estudo publicado em 2026 no International Journal of Sports Physiology and Performance investigou a influência das fases do ciclo menstrual sobre diferentes parâmetros de desempenho em jogadoras de futebol.

Intitulada Menstrual Cycle Effects on Performance Parameters in Female Football Players: A Systematic Review, a pesquisa foi conduzida por Kristine D. Rasmussen, Mette S. Bisgaard e Mette Hansen, vinculadas à Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

Como o estudo foi realizado?

Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática da literatura científica, com buscas nas bases de dados PubMed e SPORTDiscus. A pesquisa foi atualizada em janeiro de 2026 e seguiu as diretrizes PRISMA para revisões sistemáticas.

Foram incluídos estudos observacionais prospectivos que avaliaram jogadoras de futebol com ciclos menstruais regulares e mensuraram pelo menos um indicador quantitativo de desempenho em duas ou mais fases do ciclo menstrual.

Ao todo, 15 estudos, envolvendo 210 jogadoras, atenderam aos critérios de inclusão. As participantes apresentavam diferentes idades e níveis competitivos, desde categorias de base até o futebol de alto rendimento.

Os pesquisadores organizaram os resultados em três domínios principais:

  • Desempenho aeróbio: distância total percorrida durante as partidas e resultados em testes como o Yo-Yo.
  • Sprints e corridas de alta intensidade: frequência de sprints, velocidade e distância percorrida em diferentes faixas de intensidade.
  • Agilidade e potência: saltos, mudanças de direção, acelerações, desacelerações e testes específicos de desempenho físico.

Além dos resultados, os autores avaliaram a qualidade metodológica dos estudos e os procedimentos utilizados para identificar as fases do ciclo menstrual.

Quais são as fases do ciclo menstrual consideradas na pesquisa?

O ciclo menstrual é regulado pelo eixo hipotálamo-hipófise-ovários e envolve oscilações nas concentrações de hormônios sexuais, especialmente estrogênio e progesterona. Essas variações podem, teoricamente, influenciar diferentes funções fisiológicas relacionadas ao exercício.

A revisão destaca algumas fases importantes para a interpretação dos resultados:

Fase folicular inicial: corresponde ao período inicial do ciclo, que inclui os dias de sangramento menstrual. Nessa fase, as concentrações de estrogênio e progesterona são baixas.

Fase folicular tardia: período em que os níveis de estrogênio aumentam, enquanto a progesterona permanece baixa. Essa combinação hormonal pode estar relacionada a alterações em alguns mecanismos associados ao desempenho físico.

Fase lútea média: ocorre após a ovulação, quando a atividade do corpo lúteo eleva as concentrações de estrogênio e progesterona.

É importante ressaltar que a duração do ciclo e o momento das alterações hormonais variam entre as mulheres. Por isso, a identificação precisa das fases é fundamental para investigar possíveis associações com o desempenho esportivo.

Desempenho aeróbio e sprints: possíveis reduções na fase folicular inicial

Um dos principais resultados da revisão foi a identificação de possíveis reduções no desempenho aeróbio e em sprints durante a fase folicular inicial, em comparação com outras fases do ciclo menstrual.

Dos 15 estudos incluídos, cinco identificaram reduções no desempenho aeróbio e/ou em sprints, enquanto dez não encontraram diferenças entre as fases avaliadas.

Entre os estudos que observaram diferenças, dois identificaram maior distância total percorrida durante as partidas na fase folicular tardia, em comparação com a fase folicular inicial.

Outras pesquisas também relataram melhores resultados em indicadores relacionados à velocidade e aos sprints durante a fase folicular tardia.

Em um dos estudos, por exemplo, foi observada maior distância percorrida em corridas de alta velocidade nessa fase, em comparação com a fase folicular inicial e a fase lútea. Outro estudo identificou maior número de sprints durante a fase folicular tardia em relação à fase folicular inicial e à fase lútea média.

Esses achados sugerem que determinados indicadores físicos podem apresentar variações ao longo do ciclo menstrual. Entretanto, os resultados não foram consistentes entre os estudos, e não é possível afirmar que todas as jogadoras apresentem uma redução de desempenho durante a menstruação.

Agilidade e potência: resultados sem diferenças consistentes

Em relação à agilidade e à potência muscular, a revisão não identificou diferenças consistentes entre as fases do ciclo menstrual.

Os estudos avaliaram parâmetros como altura dos saltos, desempenho em saltos com diferentes características, mudanças de direção e testes específicos de agilidade.

De maneira geral, os resultados não demonstraram alterações significativas nesses indicadores associadas às fases do ciclo menstrual.

Esse achado reforça que a possível influência do ciclo menstrual não deve ser interpretada como uma alteração uniforme de todas as capacidades físicas. Diferentes indicadores podem apresentar comportamentos distintos, e as respostas individuais precisam ser consideradas.

Por que os resultados ainda são inconclusivos?

Apesar dos resultados observados em alguns estudos, os autores destacam limitações importantes na literatura científica disponível.

A principal delas é a qualidade metodológica das pesquisas. Entre os 15 estudos incluídos, aproximadamente 46% foram classificados como de qualidade muito baixa, 27% como de baixa qualidade e 27% como de qualidade moderada. Nenhum estudo foi classificado como de alta qualidade.

Outro problema identificado foi a dificuldade de confirmar com precisão as fases do ciclo menstrual. Muitos estudos utilizaram calendários menstruais, questionários ou estimativas do ciclo, sem confirmação hormonal adequada.

Essa limitação é importante porque a estimativa baseada apenas no calendário pode não identificar corretamente a ovulação ou as concentrações hormonais em determinado momento.

Além disso, as pesquisas apresentaram amostras pequenas, com grupos que variaram de sete a 33 participantes, e utilizaram diferentes protocolos de avaliação física. O período de acompanhamento também variou consideravelmente, desde um ciclo menstrual até três anos.

Outros fatores, como sono, hidratação, alimentação, motivação, sintomas menstruais e contexto competitivo, podem influenciar o desempenho e dificultar a identificação de uma relação direta entre as fases do ciclo e os resultados físicos.

Portanto, embora existam indícios de possíveis variações, ainda são necessárias pesquisas mais robustas para estabelecer conclusões consistentes.

Implicações práticas para a preparação física no futebol feminino

Para profissionais que trabalham com preparação física, fisiologia do exercício e análise de desempenho, os resultados apontam para a importância de uma abordagem individualizada no acompanhamento das atletas.

Os autores destacam que a maioria dos estudos não identificou diferenças significativas de desempenho entre as fases do ciclo menstrual. Assim, não há evidências suficientes para recomendar alterações generalizadas no treinamento com base exclusivamente na fase do ciclo.

Na prática, algumas estratégias podem contribuir para uma melhor compreensão das respostas individuais:

  • Monitoramento individual: registrar informações sobre o ciclo menstrual e os sintomas relatados pelas atletas, respeitando a privacidade e a confidencialidade dos dados.
  • Acompanhamento do desempenho: observar indicadores físicos e respostas ao treinamento ao longo do tempo, buscando identificar padrões individuais.
  • Consideração dos sintomas: avaliar como desconfortos físicos e alterações psicológicas relatadas podem interferir na disponibilidade para treinar e competir.
  • Integração entre profissionais: quando pertinente, articular o acompanhamento entre preparação física, medicina, fisioterapia, nutrição e demais áreas envolvidas no cuidado com a atleta.
  • Tomada de decisão baseada em evidências: evitar mudanças automáticas na carga de treinamento apenas porque a atleta se encontra em determinada fase do ciclo menstrual.

O monitoramento deve servir para compreender cada jogadora, e não para pressupor que todas responderão da mesma maneira às oscilações hormonais.

O que ainda precisa ser investigado?

Os autores defendem a realização de estudos com amostras maiores, métodos mais precisos de confirmação das fases do ciclo menstrual e protocolos padronizados de avaliação do desempenho.

Também é necessário aprofundar a investigação das relações entre flutuações hormonais, sintomas menstruais e indicadores físicos específicos do futebol.

Pesquisas com acompanhamento prolongado podem ajudar a distinguir variações pontuais de padrões individuais consistentes, contribuindo para decisões mais fundamentadas no treinamento e na preparação para as partidas.

Conclusão

A revisão sistemática indica que o desempenho aeróbio e em sprints pode apresentar uma leve redução durante a fase folicular inicial em algumas jogadoras de futebol. Entretanto, a maioria dos estudos analisados não identificou diferenças significativas entre as fases do ciclo menstrual.

Os resultados relacionados à agilidade e à potência também não demonstraram alterações consistentes.

Diante das limitações metodológicas identificadas, a principal implicação para o futebol feminino é a necessidade de compreender as respostas individuais das atletas, evitando generalizações e intervenções baseadas exclusivamente nas fases do ciclo menstrual.

Mais do que estabelecer regras universais, o avanço nessa área depende de monitoramento individualizado, avaliações sistemáticas e produção de evidências científicas de maior qualidade.

O artigo completo está disponível clicando aqui

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Tradução e adaptação com auxílio de IA. Revisão de João Vítor de Assis.