A ciência do esporte tem avançado significativamente na produção de conhecimentos sobre treinamento, desempenho, aprendizagem motora, tomada de decisão e preparação física. Entretanto, uma questão importante começa a ganhar espaço no debate científico: até que ponto os resultados publicados podem ser reproduzidos em outros estudos e contextos?
Um artigo publicado em 2026 na revista Sports Medicine, intitulado Towards Reflexivity: Observing the Estimation of Replicability of Sports and Exercise Science Research, de Swen Koerner e Mario S. Staller, propõe uma reflexão sobre a replicabilidade das pesquisas em ciências do esporte e questiona algumas das próprias bases utilizadas para avaliar a qualidade da produção científica.
Apenas 28% dos estudos apresentaram replicabilidade robusta
Os autores partem de um estudo de replicação conduzido por Murphy et al. (2025), que avaliou a possibilidade de reproduzir 25 resultados estatisticamente significativos publicados em periódicos científicos de alto impacto (Q1), entre 2016 e 2021.
Os resultados chamam a atenção: apenas 7 dos 25 estudos (28%) foram classificados como robustamente replicáveis. Para alcançar essa classificação, os estudos de replicação precisavam apresentar três características:
-
Resultado estatisticamente significativo (p menor que 0,05);
-
Efeito observado na mesma direção do estudo original;
-
Tamanho do efeito compatível com aquele encontrado na pesquisa original.
Esse resultado levanta questionamentos sobre a confiabilidade de parte das evidências utilizadas para fundamentar decisões e intervenções na ciência do esporte. Embora problemas como amostras pequenas, viés de publicação, superestimação dos efeitos e falta de transparência metodológica já sejam discutidos em diferentes áreas científicas, os autores defendem que a questão pode ser ainda mais profunda.
O problema pode estar também na maneira como observamos os fenômenos
Os autores argumentam que a ciência do esporte precisa refletir sobre como seus pesquisadores observam, definem e interpretam os fenômenos estudados. Isso é particularmente importante porque muitos fenômenos relacionados ao esporte são influenciados por diferentes fatores e contextos.
Treinamento, desempenho físico, aprendizagem, motivação, tomada de decisão e dinâmica coletiva não acontecem de maneira isolada. São fenômenos influenciados pela história dos indivíduos, pelas interações, pelo ambiente organizacional e pelas condições específicas de cada situação.
Por exemplo, dois estudos podem investigar o efeito de determinada intervenção sobre a carga de treinamento, mas utilizar métricas, critérios, períodos de avaliação e características de amostra diferentes. Mesmo utilizando a mesma nomenclatura, os pesquisadores podem estar observando aspectos distintos do fenômeno.
Nesse sentido, uma diferença entre os resultados de dois estudos não significa necessariamente que um deles esteja errado. Ela também pode indicar que os efeitos dependem de condições específicas que precisam ser identificadas e compreendidas.
Três mudanças propostas para a ciência do esporte
Os autores apresentam três mudanças conceituais importantes para repensar a produção científica na área.
1. Da representação para a observação contextualizada
Os resultados científicos não devem ser tratados automaticamente como representações universais de uma realidade estável. Cada pesquisa seleciona variáveis, períodos, indicadores e critérios específicos. Essas escolhas influenciam aquilo que será observado e interpretado como resultado.
Por isso, é necessário explicitar as condições em que determinado resultado pode ser considerado válido, incluindo seus limites e possibilidades de generalização.
2. Do indivíduo para os sistemas
Os autores questionam a tendência de compreender o atleta como um indivíduo isolado, dotado de características e propriedades estáveis. A proposta é considerar a interação entre diferentes sistemas: os processos psicológicos, neurais, fisiológicos, motores e sociais.
Na prática esportiva, o desempenho emerge de relações entre esses diferentes componentes, que interagem entre si sem necessariamente apresentar o mesmo funcionamento.
3. Da primazia empírica para a interdependência entre teoria e empiria
A pesquisa científica não deve considerar os dados empíricos como elementos independentes das teorias que orientam sua produção. As escolhas teóricas determinam quais variáveis serão investigadas, quais instrumentos serão utilizados e como os resultados serão interpretados.
Da mesma forma, os resultados empíricos podem questionar, ampliar ou modificar as próprias teorias utilizadas para compreender determinado fenômeno. Assim, teoria e evidência precisam ser compreendidas como dimensões interdependentes do processo científico.
Além disso, os autores não defendem o abandono dos estudos de replicação. Pelo contrário, consideram que eles continuam sendo fundamentais para o desenvolvimento científico.
Entretanto, propõem ampliar sua função: além de verificar se determinado resultado pode ser reproduzido, a replicação deve ajudar a identificar as condições em que esse resultado permanece estável e aquelas em que apresenta variações.
O que essa discussão representa para os profissionais do futebol?
Embora seja um artigo de reflexão teórica, suas contribuições apresentam implicações importantes para quem trabalha diretamente com futebol. No cotidiano dos clubes, profissionais utilizam pesquisas científicas para orientar decisões sobre treinamento, recuperação, monitoramento de carga, prevenção de lesões e desenvolvimento de jogadores.
Entretanto, é importante compreender que um resultado encontrado em determinado grupo de atletas, durante um período específico e sob determinadas condições, não necessariamente será reproduzido da mesma maneira em outro ambiente.
Isso não significa que a ciência tenha pouca utilidade para a prática profissional. Significa que sua aplicação exige interpretação crítica, compreensão dos métodos utilizados e atenção às características do contexto em que os resultados serão aplicados.
Mais do que procurar respostas universais, os profissionais precisam compreender em quais condições determinadas evidências podem contribuir para suas decisões. A principal reflexão proposta pelos autores é que a qualidade da ciência não depende apenas de produzir resultados que possam ser reproduzidos, mas também de compreender e explicitar as condições em que esses resultados são produzidos.
O artigo completo está disponível clicando aqui
Para receber conteúdos como esse em seu e-mail, participe da nossa Newsletter.
Tradução e adaptação com auxílio de IA. Revisão de João Vítor de Assis.

