A avaliação do histórico de lesões é uma das ferramentas mais utilizadas para compreender o risco de novos problemas musculares no futebol. No entanto, um novo estudo publicado na Science and Medicine in Football levanta uma possibilidade interessante: a presença de cicatrizes no músculo reto femoral, identificadas por ultrassonografia, pode fornecer informações adicionais sobre o perfil de risco de jovens jogadores.
O trabalho, conduzido por pesquisadores ligados à Juventus FC, à Universidade de Turim e a outras instituições europeias, acompanhou jogadores das categorias Sub-15 a Sub-19 e da segunda equipe de um clube profissional italiano durante duas temporadas.
O que são essas cicatrizes musculares?
As cicatrizes musculares são acúmulos de tecido fibroso que podem surgir após lesões estruturais anteriores. No caso do reto femoral, essas alterações podem permanecer identificáveis por exames de imagem mesmo quando o atleta não apresenta sintomas ou sequer se recorda de ter sofrido uma lesão naquela região.
Esse aspecto é particularmente relevante no futebol. O reto femoral participa de ações frequentes na modalidade, como sprints e chutes, e algumas lesões nessa região podem apresentar sintomas relativamente discretos, especialmente em jogadores jovens.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores acompanharam 176 jogadores, correspondentes a 262 temporadas individuais de atletas. No início de cada temporada, os jogadores passaram por avaliação ultrassonográfica bilateral da região anterior das coxas.
Foram analisadas a presença das cicatrizes, sua localização, tamanho, número e, principalmente, se havia envolvimento de tendões ou aponeuroses. Depois, os atletas foram acompanhados prospectivamente e as lesões musculares que resultaram em afastamento foram registradas sistematicamente.
24% apresentavam cicatriz no reto femoral
Entre os 176 jogadores avaliados, 43 apresentavam pelo menos uma cicatriz no reto femoral, correspondendo a 24% da amostra.
Um dado interessante é que mais da metade desses jogadores não relatava uma lesão prévia no reto femoral, apesar de a cicatriz ser identificada no exame de imagem. Dos 43 atletas com cicatriz, 22 não lembravam de uma lesão anterior nessa região. Esse resultado chama atenção para uma possível limitação do uso exclusivo do histórico relatado pelo próprio atleta.
Maior incidência de lesões entre jogadores com cicatriz
Durante o período de acompanhamento, foram registradas 145 lesões musculares sem contato, envolvendo 95 jogadores e resultando em 3.524 dias de afastamento. Os músculos posteriores da coxa foram a região mais afetada, seguidos pelo iliopsoas, reto femoral, panturrilha e adutores.
Quando os pesquisadores compararam jogadores com e sem cicatriz no reto femoral, observaram uma maior incidência de lesões musculares no grupo com cicatriz. A incidência foi de 3,25 lesões por 1.000 horas de exposição entre os jogadores com cicatriz, contra 2,05 por 1.000 horas entre aqueles sem cicatriz.
Em termos simples, a presença da cicatriz esteve associada a uma maior ocorrência de lesões musculares na análise inicial. Mas existe uma ressalva importante. A cicatriz, sozinha, não explicou o aumento do risco.
Quando os pesquisadores ajustaram as análises por idade e histórico prévio de lesões musculares, a associação entre a presença de qualquer cicatriz no reto femoral e novas lesões deixou de ser estatisticamente significativa. Esse é provavelmente o ponto mais importante para interpretar o estudo corretamente.
Os autores não estão demonstrando que uma cicatriz no reto femoral causa uma nova lesão. A interpretação proposta é que a cicatriz pode funcionar como um marcador de risco, ou seja, um sinal que ajuda a identificar jogadores que apresentam determinadas características associadas a maior ocorrência de lesões.
O que isso significa para os clubes?
O estudo apresenta uma aplicação prática interessante para a avaliação pré-temporada. A ultrassonografia pode identificar alterações estruturais que não aparecem necessariamente no relato do atleta. No estudo, mais da metade dos jogadores com cicatriz no reto femoral não se lembrava de uma lesão anterior nessa região.
Por isso, os autores sugerem que a identificação e caracterização dessas cicatrizes pode fornecer informação complementar e objetiva durante a pré-temporada, especialmente quando o histórico de lesões é incompleto ou pouco confiável. Isso não significa, entretanto, que encontrar uma cicatriz deva automaticamente levar à restrição do treinamento, alteração da carga ou afastamento do jogador.
O próprio estudo reforça que esses achados ainda são exploratórios e não podem, neste momento, ser transformados em recomendações formais.
O que ainda precisamos descobrir?
O estudo apresenta resultados relevantes, mas também possui limitações importantes. A pesquisa foi realizada em um único clube, com jogadores de diferentes idades e níveis competitivos, e não incorporou diversas variáveis que podem influenciar a ocorrência de lesões, como fatores biomecânicos, psicológicos, ambientais e relacionados ao treinamento e preparação física.
Por isso, os próprios autores defendem estudos futuros, preferencialmente multicêntricos, que incorporem outras variáveis e investiguem especificamente o valor preditivo das cicatrizes do reto femoral.
O artigo completo está disponível clicando aqui
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Tradução e adaptação com auxílio de IA. Revisão de João Vítor de Assis.
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