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As demandas físicas e fisiológicas no jogador de futebol: como funcionam?

Por: Felipe Rodrigues

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O futebol se caracteriza por ser um esporte que exige várias capacidades dos jogadores, nas quais se destacam: uma apurada técnica, boa compreensão tática, bom controle psicológico e, claro, uma excelente preparação física.

Ao falar de preparação física, devemos compreender que as demandas físicas e fisiológicas dos jogadores em uma partida possuem muitas variações, dessa forma, o jogo se configura por uma atividade física intermitente, ou seja, a energia (ATP) para a realização das ações são derivadas de diferentes fontes energéticas durante o jogo. Portanto, a quantidade de atividades de cunho aeróbio e anaeróbio trazem um parâmetro importante para a caracterização da demanda fisiológica do jogo (ARRUDA; MARIA; CAMPEIZ; BOLAÑOS, 2013).

A relação entre as demandas físicas e fisiológicas no futebol.

A demanda fisiológica representa uma medida de faixa de trabalho dos jogadores de futebol. Ela é indicada de acordo com a relação volume x intensidade dos movimentos executados pelos atletas durante o jogo / treino (ARRUDA; MARIA; CAMPEIZ; BOLAÑOS, 2013).

Desse modo, o perfil da demanda física de cada atleta pode ser utilizado como indicativo do percentual de contribuição dos três sistemas energéticos durante a partida. Conforme alguns estudos, notou-se que um atleta percorre em média 10 km durante os 90 minutos de uma partida de futebol. Ou seja, estas informações apontam para uma predominância do sistema energético aeróbio sobre o desempenho físico.

Por outro lado, nos últimos anos se notou um aumento significativo nas ações realizadas em alta intensidade pelos futebolistas durante os jogos, onde, os mesmos, chegam a alcançar uma velocidade de 32 km/h. Portanto, isto nos leva a pensar que o aumento das ações intensas vem se tornando um diferencial na preparação física e desempenho das equipes (ARRUDA; MARIA; CAMPEIZ; BOLAÑOS, 2013).  

Neste sentido, segundo Mayhew e Wenger, a relação entre atividades de alta e baixa intensidade é, cerca de, 1:7, ou seja, a cada 4s em alta intensidade (anaeróbio) é gasto 28s em atividades aeróbias (MAYHEW; WENGER, 1985). Além disso, é importante ressaltar que além das características biológicas, fatores como posições diferentes (figura 1), nível competitivo (figura 2), modelo de jogo, fadiga e o estado nutricional, também exercem influência sobre a demanda física dos futebolistas (ARRUDA; MARIA; CAMPEIZ; BOLAÑOS, 2013; SOARES; REBELO, 2013).

Figura 1: Demanda física por posição (SOARES; REBELO, 2013).
Figura 2:Demanda física por nível competitivo (SOARES; REBELO, 2013).

Da teoria à prática. Como as demandas físicas e fisiológicas se manifestam durante a partida?

Primeiramente, sabemos que a demanda física de um atleta profissional de futebol é muito alta, atingindo um volume de até 14 km percorridos por jogo, tendo sua maior parte percorrida durante o primeiro tempo. Assim sendo, podemos fazer a relação volume x intensidade da seguinte forma:

  • 22% – 24% da distância total percorrida em velocidade >15 km/h;
  • 8% – 9% >20 km/h;

Por outro lado, o estudo de BARROS E GUERRA (2004) traz a relação entre volume x intensidade considerando o tempo, indicando que o atleta tem a seguinte demanda física durante os 90 minutos:

  • 17,1% do tempo parados;
  • 40,4% andando;
  • 35% correndo em baixa intensidade;

Além disso, o atleta realiza cerca de 1.400 mudanças de atividades e 700 mudanças de direção por partida, uma média de 40 ações superiores a 21 km/h e 600 acelerações e desacelerações por jogo (DOLCI et al, 2020). 

Nesse sentido, ocorre a realização de diferentes movimentos nas mais variadas intensidades (figura 3), no qual a frequência cardíaca (FC) média é de 75% a 85% da máxima, algo em torno de 160 – 175 bpm. Assim, com um percentual de 75% do seu VO₂ máx., podem ser queimadas mais de 1.500 kcal no decorrer da partida, deste modo, solicitando altas demandas fisiológicas e energéticas aos atletas para superar os desafios impostos a eles durante o jogo (ARRUDA; MARIA; CAMPEIZ; BOLAÑOS, 2013; REILLY; THOMAS, 1979).

Figura 3 (Di salvo et al.,2007).

Contribuição aeróbia, anaeróbia e a relação com o jogo.

A função de todos os sistemas são formar ATP’s para a contração muscular e, como pode ser notado pelos dados apresentados acima, as demandas físicas e fisiológicas no futebol consistem em um nível submáximo e máximo, no qual há um forte recrutamento do sistema aeróbio durante a partida. Dessa forma, cerca de 88% do tempo é utilizado o sistema aeróbico como a principal fonte de fornecimento energético, com os outros 12% ficando por conta do sistema anaeróbio (SHEPARD, 1987; MAYHEW; WENGER, 1985).

Em contrapartida, sabemos que os lances decisivos são derivados de ações intensas, conexos as capacidades físicas de força, potência e velocidade. Nesse sentido, estudos mostraram que jogadores de elite se exercitam em uma intensidade maior do que jogadores de divisões inferiores, nos levando a fazer uma relação direta entre a intensidade e qualidade do jogo (figura 4) (MUJUKA,2000; EKBLOM, 1994; SOARES; REBELO, 2013).

Figura 4: Concentração Lactato em jogadores de diferentes divisões (BANGSBO, 1994; SOARES; REBELO, 2013).

Notamos então que, apesar de haver uma demanda energética aeróbia maior, não se pode indicar qual via é mais importante. Ou seja, é necessário o atleta estar apto a realizar as demandas físicas solicitadas durante a partida.

Sendo assim, cabe as comissões técnicas traçarem estratégias para, durante os treinamentos, potencializarem o desempenho global dos seus atletas, considerando todas as suas dimensões e fatores que possam influenciar neste processo (figura 5) (SOARES; REBELO, 2013).

Figura 5 (ARRUDA; MARIA; CAMPEIZ; BOLAÑOS, 2013) (adaptado Braz, 2009).

Contato do autor:

Instagram: endrigo_f

Email: endrigof1@gmail.com

Referências:

EKBLOM, B. Football (Soccer). Oxford; Blackwell scientific publications, 1994.

MAYHWEYW, S. R.; WENGER, H. A. Time-motion analysis of professional soccer. J Hum.Mov.Stud., v11, p.49-52, 1985.

MUJUKA, I. et al. Creatine supplementation and sprint performance in soccer players. Med. Sci. Sports Exerc., v.32, n.2, p.518-25, 2000.

REILLY, T. THOMAS, V. Estimated daily energy expenditures of professional association footballers. Ergonomics, b22 p. 241-8, 1979.

SHEPARD, R. J.; Leatt, P. carbohydrate and fluid needs of the soccer player. Sports. Med., v.4, n.3, p.164-76, 1987.

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