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Exercícios preventivos para lesões de isquiotibiais no Futebol

Por: Ricardo de Sá

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Se você é leitor do nosso blog do Ciência da Bola e acompanha as publicações relacionadas à Preparação Física de Futebol, saberá que comecei, há alguns meses, uma sequência de textos relacionados às lesões no Futebol. Dessa forma, daremos continuidade nessa temática, porém, com um enfoque mais prático. Tentaremos elucidar, com base na literatura científica atual, quais são os principais exercícios utilizados para a prevenção de lesões de isquiotibiais no futebol. Não é minha pretensão apontar uma resposta definitiva sobre o assunto, mas sim, fazê-los refletir e criar ainda mais questionamentos a respeito dessa questão. Então vamos ao texto!

Musculatura Isquiotibial

De acordo com Naclerio e Goss-Sampson (2013), as lesões de isquiotibiais no futebol são um fenômeno complexo, multifatorial e uma das mais comuns em muitos outros esportes, por diversas razões, por exemplo: a sua organização biarticular ou dupla inervação do bíceps femoral e, ainda, uma série de fatores de risco modificáveis (fadiga, déficits de força, desequilíbrio muscular, baixa flexibilidade, controle motor inadequado, etc.) e não modificáveis (idade, etnia, relações antropométricas, histórico de lesões prévias, etc.).

Com isso, todas essas variáveis terão um impacto sobre o risco de lesão, o que faz necessário uma abordagem integrada/holística de cada atleta, pois a possibilidade de lesão irá variar de caso a caso.

Desse modo, para os autores Naclerio e Goss-Sampson (2013), na revisão de literatura que propuseram em torno da efetividade de diferentes protocolos para prevenir lesões dos isquiotibiais, foi apontado um protocolo com três exercícios de cadeia cinética aberta e três de cadeia cinética fechada. Os resultados tiveram efeitos positivos, dentre os quais destacaram alguns exercícios (Figura 1).

Figura 1. Três exercícios propostos para um programa de prevenção de lesões de isquiotibiais. Adaptado de Naclerio e Goss-Sampson (2013)

Os próprios autores afirmam que existe um debate em torno da utilização do curl nórdico, porque a amplitude de movimento treinada de forma efetiva será restrita a ângulos mais próximos (< 30° de extensão do joelho) e não será transferida para todo o comprimento do músculo na sua porção mais longa. Ou seja, observamos que a cabeça longa do bíceps femoral e o semimembranoso foram significativamente menos ativados do que o semitendinoso durante o exercício nórdico.

Assim, os autores recomendam a utilização dos três exercícios descritos na Figura 1. Mas, devendo somar aos mesmos, outras alternativas de exercícios, incluindo do CORE.

Utilização de exercícios com diferentes padrões de ativação para os isquiotibiais

Em concordância com a interpretação dos autores anteriormente citados, estão Bourne et al (2016), que realizaram um estudo para verificar o impacto seletivo de exercícios na ativação do músculo isquiotibial, mais especificamente no bíceps femoral na sua porção longa.

Verificamos que os padrões de ativação dos isquiotibiais diferem acentuadamente entre os exercícios. Sendo que os exercícios de extensão do quadril visam, mais seletivamente, o bíceps femoral cabeça longa sem deixar de ativar o semimembranoso e o semitendinoso. Já o exercício nórdico recruta, preferencialmente, o semitendinoso (Figura 2).

Figura 2. Diferença de ativação da musculatura isquiotibial entre o exercício de flexão de quadril unilateral em 45° e o exercício curl nórdico. BF – Bíceps femoral; ST – Semitendinoso; SM – Semimembranoso. Adaptado de Bourne et al. (2016).

Esse dado sugere que as estratégias de ativação dos isquiotibiais são parcialmente dependentes das articulações envolvidas em cada movimento. Isso tem implicação direta, por exemplo, na seleção de um exercício para a reabilitação e/ou prevenção de um jogador. Pois, se queremos prevenir lesões do bíceps femoral e realizamos um protocolo com curl nórdico, conforme o estudo, esse músculo terá uma baixa ativação e corremos o risco de não prevenir tal musculatura da forma que imaginamos.

Portanto, os exercícios de prevenção e reabilitação de lesão isquiotibial podem, potencialmente, ser direcionados ao local da lesão. Assim, os isquiotibiais são ativados de formas diferentes durante as tarefas baseadas no movimento do quadril e dos joelhos.

Visão holística sobre a prevenção da musculatura isquiotibial

Por outro lado, um estudo publicado recentemente por Suarez-Arrones et al (2021), buscou uma abordagem holística de prevenção das lesões de isquiotibiais no futebol de elite. Eles realizaram o estudo num mesmo clube, durante 12 temporadas.

Os autores propuseram exemplos de intervenções semanais com exercícios de força, coletivos e individuais. Esse último, para aqueles casos com histórico de lesão do bíceps femoral cabeça longa. Então, propuseram um vasto repertório de exercícios em academia para todo o grupo e diferentes musculaturas do trem inferior (Figura 3), para ativar especificamente a cadeia posterior (Figura 4) e para aqueles casos de histórico lesivo prévio (Figura 5).

Figura 3. Exemplo de trabalho coletivo na academia. 2 x 10 exercícios (entre 6 a 10 repetições por exercício) com foco no trem inferior. Adaptado Suarez-Arrones et al. (2021).
Figura 4. Exemplo de exercícios utilizados durante ativação individual para a cadeia posterior antes do treinamento no campo em espaços amplos com alto volume de corridas em altas velocidades. Adaptado Suarez-Arrones et al. (2021).
Figura 5. Exercícios utilizados durante treinamento individualizado de força para jogadores com histórico de lesão no bíceps femoral cabeça longa. Adaptado Suarez-Arrones et al. (2021).

Como resultado, os protocolos propostos no estudo reduziram em torno de 3 vezes o número de lesões nos isquiotibiais, além de zerar a taxa de reincidência das mesmas para esse grupo muscular no chamado grupo de intervenção.

Porém, o estudo propõe uma abordagem holística desse tema, creditando o resultado positivo do programa de prevenção complexo de multicomponentes à combinação de diferentes fatores, tais como:

  • 1) Treino de força com exercícios específicos para a cadeia posterior;
  • 2) Controle do treino de campo;
  • 3) Tratamento fisioterápico;
  • 4) Gestão da carga de treino;
  • 5) Treino individual (pontos fracos);
  • 6) Comunicação entre o staff e gestão da carga individual dos jogadores.

O que aprendemos sobre as lesões dos isquiotibiais e os exercícios preventivos?

Assim sendo, com todo o exposto até aqui, entende-se que não existe um “padrão ouro” de exercícios que irão prevenir de forma cem por cento eficaz as lesões de isquiotibiais no futebol. Existem sim, fortes indícios científicos de que, conhecendo o exato local da lesão, alguns exercícios serão mais indicados do que outros para tratar e evitar a reincidência de lesões. Por outro lado, no caso de um atleta sem histórico lesivo, o mais indicado é um protocolo com vasto repertório de exercícios que ativem os diferentes músculos que compõem os isquiotibiais.

Também vale destacar que, assim como afirmam Suarez-Arrones et al (2021), esse tema requer uma abordagem complexa e holística, que considere múltiplos fatores e suas inter-relações implementadas de forma eficaz por profissionais capacitados e analisando cada caso de forma individualizada.

Futuras publicações

Para o próximo texto, iremos abordar a mesma temática, porém agora direcionada a musculatura do quadríceps. Então, se você gostou dos textos até aqui, não deixe de acompanhar as próximas publicações!


Escute nosso podcast com Sandro Graham, assim você irá aprender mais sobre o trabalho do fisiologista no futebol.

Contato do autor:
Instagram @pf_ricardosa
E-mail: ricardosa2506@gmail.com

Foto de capa
Fonte: telegraph.co.uk

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